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Uma Meditação de Natal por Thich Nhat Hanh

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Esta noite comemoramos o nascimento de uma pessoa muito cara à humanidade, uma pessoa que trouxe luz ao mundo, Jesus Cristo. Esperamos que crianças iguais a Ele nasçam para nós em todos os momentos da nossa vida cotidiana.

Caros amigos, hoje é Véspera de Natal de 1996. Sejam bem-vindos ao Salão de Meditação da Lua Cheia aqui em New Hamlet em Plum Village. São três horas e quinze minutos da tarde de 24 de dezembro de 1996. Nosso retiro é uma espécie de lar para onde podem voltar.

O Natal é, muitas vezes, descrito como uma festa para crianças. Tendo a concordar com isso porque quem não é ou já não foi criança? A criança que existe em nós está sempre viva; talvez não tenhamos tido tempo bastante para cuidar da nossa criança interior.

No meu entender, é possível ajudar a nossa criança interior a renascer muitas e muitas vezes, porque o espírito da criança é o Espírito Santo, é o espírito do Buda. Não existe discriminação. Uma criança sempre é capaz de viver o momento presente.

Ela também consegue ser livre de preocupações e receios quanto ao futuro. Por isso, é muito importante que nos comportemos de maneira a permitir o renascimento da criança dentro de nós. Deixemos a criança nascer em nós.

Esta noite comemoramos o nascimento de uma pessoa muito cara à humanidade, uma pessoa que trouxe luz ao mundo, Jesus Cristo. Esperamos que crianças iguais a Ele nasçam para nós em todos os momentos da nossa vida cotidiana.

Na tradição budista praticamos o “Começar de Novo”, um costume muito importante. “Começar de novo” significa que renascemos totalmente renovados e capazes de começar novamente. Estas são as notícias realmente boas.

O ensinamento de Buda nos proporciona meios de renascermos em cada momento da nossa vida diária e aprendermos a amar outra vez. Existem pessoas tão desanimadas que não têm mais coragem de amar. Sofreram demais porque tentaram amar e não foram felizes. As feridas interiores são tão profundas que receiam fazer outra tentativa.

Estamos cientes da presença dessas pessoas entre nós, ao nosso redor. Temos que lhes levar a mensagem de que o amor é possível, porque o nosso mundo necessita desesperadamente de amor.

No budismo falamos sobre a mente do amor, bodhicitta. Quando vocês estão motivados pelo desejo de transcender o sofrimento, de sair de uma situação difícil e ajudar outros a fazer o mesmo, obtêm uma poderosa fonte de energia que os auxilia a fazer o que desejam para se transformar e ajudar outras pessoas.

A isto damos o nome de bodhicitta, a mente do amor. Sua origem é uma forte sensação de que não querem mais sofrer. Não desejam mais que outras pessoas sejam envolvidas em tal tipo de situação. Isto é iluminação, aquela espécie de iluminação que produz em vocês uma poderosa fonte de energia chamada de “o espírito do amor” ou “mente da iluminação”.

É um começo muito importante. Se conseguirem manter esta fonte de energia intensa dentro de vocês, serão capazes de enfrentar quaisquer obstáculos e superá-los.

Este é o motivo por que a bodhicitta é tão importante. Se tivermos a energia do amor, se tivermos bodhicitta em nós, então estaremos plenos de vida. Seremos fortes, não teremos medo de coisa alguma, porque o amor nos ajudará a superar todas as dificuldades e situações de desespero.

O verdadeiro amor é feito de compreensão – baseia-se em entender o outro, o objeto do seu amor, compreender seus sofrimentos, dificuldades e as suas verdadeiras aspirações. A partir da compreensão virá a bondade, compaixão, um oferecimento de alegria. Também haverá muito espaço e respeito, porque o verdadeiro amor não é possessivo.

Vocês amam e ainda serão livres, e o mesmo se aplica ao outro. O amor sem alegria não é verdadeiro. Se os dois choram todos os dias, não existe amor verdadeiro. No amor é necessário que haja alegria, liberdade e compreensão.

O próximo Buda que virá para nós é descrito como o Buda do Amor, Maitreya. Esforçamo-nos para fazer com que sua aparição se torne realidade. Estamos preparando as bases para o Buda-que-virá.

O próximo Buda poderá ser uma Sangha, uma comunidade de prática, uma comunidade de pessoas que compartilham os mesmos valores, não uma pessoa apenas, porque o amor é para ser praticado coletivamente. Precisamos uns dos outros para que a prática seja bem-sucedida, ou seja, a prática do amor entendido por muitas pessoas ao mesmo tempo.

Amor é uma espécie de energia. Na tradição budista, podemos identificar a natureza desta energia. Conseguimos reconhecê-la quando está presente. Quando o amor não for verdadeiro, seremos capazes de saber, e o mesmo poderemos dizer quando for verdadeiro. Esta é uma das nossas práticas.

No caso em pauta, o amor também pode ser descrito como fé, porque esta é uma fonte de energia com capacidade para nos sustentar, dar força. Amor e fé também devem ser cultivados. Não são apenas idéias ou o compromisso a um determinado número de conceitos e dogmas. O amor é algo vivo, e o mesmo pode ser dito acerca da fé.

No processo de amar, aprende-se muito. Quanto melhor se ama, menos erros se cometem. Você se torna mais capaz de ser feliz e de proporcionar felicidade a outras pessoas. Isto desenvolve a fé na própria capacidade de amar.

A fé, então, é um elemento muito concreto – é composta da verdadeira experiência espiritual, a experiência da vida cotidiana. E a fé de que estamos falando significa não ser envolvido por uma idéia, um dogma ou uma doutrina. Fé é conseqüência da vida. Ela se desenvolve, cresce.

À proporção que ela cresce, vocês recebem energia, porque a fé também é energia como o amor. Se observarmos atentamente a natureza do nosso amor, também veremos a fé. Quando temos fé, nada mais receamos.

As pessoas que em nada acreditam são as que sofrem mais. Não vêem nada belo, verdadeiro ou bom. Encontram-se na mais completa confusão. Este é o pior tipo de sofrimento. Talvez sofram mais profundamente do que qualquer outra pessoa que encontremos.

Se não acreditam em alguma coisa, tornam-se uma espécie de alma errante; não sabem para onde ir ou o que fazer. Não vêem significado em viver. Por isso, podem tentar se destruir, física ou mentalmente. E nos dias de hoje existem disponíveis inúmeras maneiras de autodestruição.

Se existe alguma distinção entre o verdadeiro amor e o tipo de amor que só é capaz de produzir sofrimento e desespero, o mesmo pode ser dito quanto à fé. Existe uma espécie de fé que nos sustenta e que, sem cessar, nos proporciona força e alegria. Há também o tipo que pode desaparecer um dia pela manhã ou à noite, deixando-nos totalmente solitários e perdidos.

Quando você tem fé, tem a impressão de possuir a verdade, o insight. Sabe qual o caminho a seguir, a adotar, e por isso você é uma pessoa feliz. Mas será que isto é um verdadeiro caminho ou apenas o apego a um conjunto de crenças?

São duas coisas diferentes. A fé verdadeira surge da maneira como o caminho adotado pode lhe trazer vida, amor e felicidade todos os dias. Você não pára de aprender, de modo que a sua felicidade e paz e a felicidade e a paz de quem está ao seu redor possam crescer. Você não precisa seguir um caminho religioso para ter fé.

Comprometer-se com apenas um conjunto de conceitos e dogmas que podem ser chamados de fé não é a verdadeira fé. É necessário discernimento. Aquilo não é a verdadeira fé, mas lhe dá energia. Esta força ainda é cega e capaz de causar sofrimento àqueles que lhe são próximos.

É muito diferente daquela que pode mantê-lo lúcido, amoroso e tolerante e capaz de induzi-lo a cometer muitos erros. Precisamos fazer a distinção entre a fé verdadeira e a fé cega. Esse é o problema em todas as tradições.

No ensinamento de Buda, a fé é composta de uma substância chamada insight ou experiência direta. Quando um mestre sabe alguma coisa, deseja transmiti-lo aos discípulos. Não pode transmitir a experiência, somente o conceito. O discípulo precisa, ele mesmo, experimentá-la.

O problema não é comunicar a experiência em termos de conceitos ou noções. A dificuldade é como ajudar o discípulo a passar pelo mesmo tipo de experiência. Você sabe, por exemplo, o sabor da manga e talvez queira tentar descrevê-lo, mas é melhor oferecer ao discípulo um pedaço da fruta, de maneira que ele tenha uma experiência direta.

Se decidir escrever um livro sobre zen-budismo, pode fazer muita pesquisa, ler uma centena, ou duas, de livros e usar este conhecimento para escrevê-lo, mas este livro não será de grande ajuda, porque não partirá da sua vivência, da sua experiência direta.

Iluminação, liberdade e transformação acontecem pela experiência direta. Este é o verdadeiro conhecimento, não um conceito intelectual a respeito. O verdadeiro conhecimento é a compreensão profunda do que existe ali como objeto da sua percepção, e o mesmo se aplica ao insight.

O insight, ou compreensão clara da natureza íntima de alguma coisa, não pode ser apenas um conceito obtido enquanto se conversa com outra pessoa. Isto talvez desencadeie algum tipo de entendimento, e que também é experiência direta. O verdadeiro insight vem de dentro de você e não do que qualquer outra pessoa falou. (…)

Celebramos o Natal. Comemoramos o nascimento de uma criança. Mas precisamos olhar para dentro de nós. Há uma criança em nós que precisa nascer. A prática é permitir que esta criança nasça em todos os momentos da vida cotidiana. Feliz Natal! Joyeux Noel à vous tous!

(Do livro “Jesus e Buda Irmãos”  de Thich Nhat Hanh)

 

Fonte: http://sangavirtual.blogspot.com


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