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Radha Burnier: A Fonte da Felicidade

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Na Índia antiga, a consciência, em sua dimensão pura e absolutamente verdadeira,era considerada sinônimo de inteligência e bem-aventurança. A constatação de que não é só o ser humano que procura a felicidade, mas todas as formas de vida, prova que a felicidade é inerente à natureza da consciência.

Ninguém questiona por que é feliz. Todos têm como certo que a felicidade é um estado natural eque têm o direito de experimentá-Ia. Só quando ela não existe eles se sentem impelidos a perguntar por ela. Quanto menos consciência houver florescido nos seres humanos, mais eles sentirão um vazio e um descontentamento, que se manifestam numa ânsia de procurar o que, na opinião deles, contribuiria para sua felicidade.

Buscar continuamente a felicidade no mundo exterior, através da família, dos amigos,dos objetos, do dinheiro, etc., é uma ilusão tremenda em que os homens estão presos. Na tradição oriental, essa ilusão, que já dura há longas eras, é comparada a um enorme oceano no qual os seres humanos estão submersos. É o “oceano do vir-a-ser”, conhecido em sânscrito como bhava-sagara.

A ilusão começa a ter fim quando se reconhece que é um enorme erro buscar a felicidade no mundo exterior. Essa busca desesperada aniquila o que se procura, pois a fonte da felicidade é a própria consciência. A verdadeira felicidade só é possível quando se permite que a consciência interior se revele e se torne presente na maior parte do tempo. Para a mente moderna, a verdade do desapego parece irremediavelmente remota,pois ela está acostumada à excitação, aos prazeres e à ênfase na experiência.

Desapego é sempre sinônimo de renúncia às coisas, às responsabilidades, pessoas e atividades externas. O verdadeiro desapego tem que ser compreendido como uma condição interior que possa surgir independentemente de quaisquer circunstâncias externas.

O desejo de renunciar às coisas externas e de escapar delas é em si mesmo uma forma de apego. O desapego é a total libertação do desejo por experiência ou da lembrança da experiência. É a constante eliminação do pó que se acumula sobre o espelho da consciência, a fim de que ele produza sempre um puro reflexo da verdade.

A sabedoria antiga ensina que a mente que não se prende a nada alcança o Nirvana. A mente se apega ao que ela está acostumada e lhe é familiar. Por essa razão não éfácil se libertar dos hábitos. A mente se apega a convenções, padrões estabelecidos e tradições.  Ela teme a morte, pois a morte a privará do que ela conhece.

Krishnamurti salienta que não se pode ter medo do desconhecido, porque é desconhecido. O medo da morte é o medo de perder o que conhecemos. As lágrimas derramadas pela morte de alguém são freqüentemente causadas pela perda do apoio material ou psicológico a que se estava acostumado. O apego também se mostra como ânsia de existir na forma que se conhece, possivelmente com algumas modificações de acordo com os desejos não atendidos. O desejo de “ser” faz parte da lista de fatores que incapacitam a mente para a ioga.

Este é o arraigado e, às vezes, sutil desejo de continuidade existente em todos os indivíduos. Há um anseio de perpetuar-se através dos filhos e da família ou de algum tipo de fama, e até mesmo por meio de fotografias e retratos pendurados emdiferentes lugares. O desejo de continuidade através da fama já fez homens arriscarem suas vidas para realizarem atos supostamente heróicos.

Também se expressa na grande importância quea mente pode dar às reencarnações, ao mesmo tempo que imagina suas vidas passadas e futuras, deleitando-se já com as novas realizações que terá em outras reencarnações.Uma forma de manifestação do mesmo desejo é a preocupação com a existência pós-morte, o que leva as pessoas a recorrerem a médiuns e sessões espíritas.

O Desejo de “Ser” Deve Ser Anulado
A reencarnação tem sido ensinada como parte da filosofia de diversas religiões, devido à sua explicação para o sofrimento da vida e a justiça, ou injustiça dos acontecimentos. A crença na reencarnação sem dúvida ajuda aqueles que se desesperam, especialmente quando os dogmas religiosos insistem que se não houver progresso – segundo determinadas linhas – durante uma só curta vida, haverá uma condenação eterna.

Apesar desse apoio dado pelo ensinamento sobre a reencarnação, o mais sábio dos homens, o Senhor Buda, nunca falou explicitamente sobre o tema, nem foi dada ênfase ao assunto por outras importantes escolas de pensamento e alguns grandes mestres.

A razão é clara. Embora a vida e a consciência possam se manifestar sucessivamenteem diversos veículos, esse fato tem pouca importância para os que buscam seriamente se libertar da ignorância e do sofrimento. Essa libertação é a extinção do desejo e do apego. O apego à idéia de continuidade, sob quaisquer formas, como os outros tipos de apego, é um obstáculo à liberdade. 

Deve-se dar atenção especial a essa forma específica de apego, pois ela é extremamente sutil e se esconde nas áreas mais profundas da mente. Ao tentar entender o eu, o “desejo de ser” deve ser procurado e anulado, antes de se poder dizer que o “ser” foi entregue ao”não-ser”. Extirpar o desejo de continuidade é muito mais importante do que investigar as vidas passadas ou especular sobre a existência futura.

Radha Burnier –   Presidente Intenacional da Sociedade Teosófica – em “O Caminho do Autoconhecimento”

 

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