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Amar – verbo, ação e arte

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Um conto chinês resume exatamente a essência disso:

Um jovem foi visitar um sábio conselheiro e disse-lhe sobre as dúvidas que tinha a respeito dos seus sentimentos por uma bela mulher.
O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe apenas uma coisa:
Ame-a.
E logo se calou.
Disse o rapaz:
Mas, ainda tenho dúvidas…
Ame-a, disse-lhe novamente o sábio.
E, diante do desconcerto do jovem, depois de um breve silencio, disse-lhe o seguinte:
Meu filho, amar é uma decisão, não um sentimento.
Amar é dedicação e entrega.
Amar é um verbo e o fruto dessa ação é o amor.

O amor é um exercício de jardinagem.

Arranque o que faz mal, prepare o terreno, semeie, seja paciente, regue e cuide.
Esteja preparado porque haverá pragas, secas ou excessos de chuvas, mas nem por isso abandone o seu jardim.
Ame, ou seja, aceite, valorize, respeite, de afeto, ternura, admire e compreenda.

Simples? Aparentemente. Mas não é algo fácil.

Assim escreve Liane Alves em matéria para Vida Simples:

Sabe aquela emoção que enche o peito, faz ferver o sangue, palpitar o coração? Aquele sentimento que dá vontade de sair dançando e cantando “Singing in the Rain” no meio da rua? Sabe? Pois é. Isso não é amor, não. Pode ser muita coisa boa, menos amor. Talvez seja paixão, desejo de se fundir no outro, surto emocional ou até mesmo uma mistura explosiva de tudo isso. Amor não é. Prefiro dizer isso logo de cara porque muita gente já confundiu esses sentimentos, e não são poucos os poetas, compositores, dramaturgos e cineastas que insistem em chamar de amor essa sensação embriagadora. O amor de verdade, no entanto, começa depois do “The End” e é menos atormentado e impulsivo. Em compensação, é mais forte e profundo.

 

E, já que estamos limpando o terreno, é bom avisar também que amor de verdade é coisa rara e difícil de ser vivida. Mais: ele não acontece por acaso, nem de repente. E dá trabalho conquistar. Desculpe a franqueza, mas é melhor jogar um balde de água fria agora do que lá no meio do texto. “O amor é uma árdua conquista. A paixão, obra do acaso, brincadeira dos deuses“, escreveu o psicanalista austríaco Erich Fromm, estudioso do assunto. Enfim, o amor é um sentimento cultivado com paciência, uma escolha que exige nossa participação ativa e consciente. Ele pode nascer da paixão, mas seguramente não possui a mesma natureza instantânea e efêmera.

Antes de sair em busca desse sentimento, porém, é melhor saber do que estamos falando, definir seus contornos, precisar o que ele é – e o que ele não é. Só então podemos ir a campo para enfrentar o mais emocionante desafio, talvez mesmo a razão de nossas vidas: aprender a amar.

É, parecia mais fácil. Não é exatamente o que aprendemos com os contos de fadas? Sim. Depois somos bombardeados com romances, poesias, músicas, novelas e filmes.  É preciso reaprender o amor.

Morgan Scott Peck, psiquiatra e autor do best-seller A Trilha Menos Percorrida (The Road Less Traveled), e de outros dois títulos Prosseguindo na Trilha Menos Percorrida e Além da Trilha Menos Percorrida que completam a trilogia, define o amor como “a vontade de se expandir para possibilitar o nosso próprio crescimento ou o crescimento de outra pessoa”, sugerindo que o amor é ao mesmo tempo “uma intenção e uma ação”. Expressamos amor através da união do sentimento e da ação.

“É no processo de confrontação e resolução de problemas que a vida adquire significado (…) os problemas apelam à nossa coragem e sabedoria; na verdade, criam a nossa coragem e sabedoria. É unicamente devido aos problemas que crescemos mental e espiritualmente”.

Publicado originalmente em 1978, nos Estados Unidos, esse livro fala, além do amor, sobre o mundo real, em que os bons momentos, o sucesso profissional só acontecem quando são buscados, quando nos arriscamos, quando investimos tempo e sentimentos em planos que podem não dar certo, em pessoas que podem não nos corresponder, em ideais que podem nos decepcionar. Ao longo do livro encontramos vivências do autor como psicoterapeuta e relatos de pacientes com uma nova visão da psicologia sobre o amor, os valores tradicionais e o crescimento espiritual.

E é justamente assim que ele começa:

A VIDA É DIFÍCIL. Esta é uma grande verdade, uma das maiores verdades.

É uma grande verdade porque uma vez que vejamos realmente esta verdade, transcendemo-la. Quando sabemos verdadeiramente que a vida é difícil – quando o compreendemos e aceitamos verdadeiramente – a vida deixa de ser difícil. Porque assim que é aceita, o fato de a vida ser difícil deixa de ter importância. A maior parte das pessoas não vê inteiramente esta verdade de que a vida é difícil.

Em vez disso, lamenta-se mais ou menos incessantemente, ruidosa ou sutilmente, da enormidade dos seus problemas, encargos e dificuldades, como se a vida fosse fácil de um modo geral, como se a vida devesse ser fácil. (…)

Eu conheço esta lamentação porque já fiz a minha parte. A vida é uma série de problemas. Queremos lamentar-nos ou resolvê-los? Queremos ensinar os nossos filhos a resolvê-los?

E o autor chega então a explicação do:

Mito do Amor Romântico

Para servir assim tão bem para nos apanhar no casamento, a experiência de se apaixonar tem provavelmente como uma das suas características a ilusão de que a experiência irá durar sempre. Esta ilusão é fomentada na nossa cultura pelo mito vulgarmente cultivado do amor romântico, que tem as suas origens nas nossas histórias infantis favoritas, em que o príncipe e a princesa, uma vez unidos, vivem felizes para sempre. O mito do amor romântico diz-nos, com efeito, que para cada rapaz no mundo há uma rapariga que “foi feita para ele” e vice-versa. Além disso, o mito implica que há um só homem destinado a uma mulher e uma só mulher para um homem e que isso foi predeterminado “nas estrelas”.

Quando conhecemos a pessoa a quem estamos destinados, o reconhecimento advém do fato de nos apaixonarmos. Encontramos a pessoa a quem os céus nos tinham destinado, e uma vez que a união é perfeita, seremos capazes de satisfazer as necessidades um do outro para sempre, e portanto viver felizes para sempre em perfeita união e harmonia. Se acontecer, no entanto, não satisfazermos ou não irmos de encontro a todas as necessidades um do outro surgem atritos e desapaixonamo-nos. Está claro que cometemos um erro terrível, interpretamos as estrelas erradamente, não nos entendemos com o nosso único par perfeito, o que pensamos ser amor não era amor real ou “verdadeiro”, e não há nada a fazer quanto à situação a não ser viver infelizes para sempre ou obter o divórcio.

Embora eu pense que, de um modo geral, os grandes mitos são grandes precisamente porque representam e incorporam grandes verdades universais (serão explorados vários destes mitos mais adiante neste livro), o mito do amor romântico é uma terrível mentira. Talvez seja uma mentira necessária por assegurar a sobrevivência da espécie, por estimular e validar convenientemente a experiência de nos apaixonarmos que nos leva ao casamento. Mas, como psiquiatra, o meu coração chora quase todos os dias pela horrível confusão e sofrimento que este mito gera. Milhões de pessoas desperdiçam enormes quantidades de energia tentando desesperada e futilmente fazer com que a realidade das suas vidas se ajuste à irrealidade do mito.

A Sra. A submete-se absurdamente ao marido devido a um sentimento de culpa. “Eu não amava verdadeiramente o meu marido quando nos casamos,” diz ela. “Fingia que sim. Acho que o enganei para se casar comigo, portanto não tenho o direito de me queixar dele, e devo-lhe fazer tudo o que ele quiser.” O Sr. B lamenta: “Estou arrependido de não me ter casado com a Menina C. Penso que poderíamos ter tido um bom casamento. Mas não me sentia perdidamente apaixonado por ela, portanto parti do princípio que ela não era a pessoa certa para mim.” A Sra. D, casada há dois anos, fica gravemente deprimida sem causa aparente e começa a fazer terapia, afirmando: “Não sei o que se passa de errado. Tenho tudo o que preciso, incluindo um bom casamento.” Só meses mais tarde consegue aceitar o fato de se ter desapaixonado do marido, mas que isso não significa que tenha cometido um horrível erro. O Sr. E, também casado há dois anos, começa a sofrer de dores de cabeça intensas à noite e não acredita que sejam psicossomáticas. “A minha vida doméstica corre bem. Amo tanto a minha mulher como no dia em que casei com ela. Ela é tudo o que eu sempre quis.” Mas as dores de cabeça continuaram até que, um ano mais tarde, conseguiu admitir, “Ela dá-me cabo da cabeça porque está sempre a querer, querer, querer coisas sem se preocupar com o meu orde­nado,” e foi então capaz de a confrontar com a sua extravagância. O Sr. e a Sra. F reconhecem que deixaram de estar apaixonados e passam a fazer-se infelizes um ao outro por mútua infidelidade galopante à medida que procuram o “verdadeiro amor”, sem se aperceberem que o seu próprio reconhecimento podia marcar o início da obra do seu casamento em vez do fim.

Mesmo quando os casais reconhecem que a lua-de-mel terminou, que já não estão romanticamente apaixonados um pelo outro e ainda conseguem empenhar-se na sua relação, continuam a agarrar-se ao mito e tentam adaptar-lhe as suas vidas. “Apesar de já não estarmos apaixonados, se agirmos por força de vontade como se estivéssemos apaixonados, pode ser que o amor romântico regresse às nossas vidas,” segundo o seu raciocínio. Estes casais privilegiam o estar juntos. Quando iniciam a terapia de grupo para casais (que é o cenário em que a minha mulher e eu e os nossos colegas mais próximos exercemos o aconselhamento matrimonial mais crítico), sentam-se juntos, falam um pelo outro, defendem os defeitos um do outro e tentam apresentar ao resto do grupo uma frente unida, acredi­tando que esta unidade seja um sinal de saúde relativa do seu casamento e um pré-requisito para a sua melhoria.

Mais cedo ou mais tarde, normalmente mais cedo, temos que dizer à maior parte dos casais que estão demasiado casados, demasiado próximos, e que têm de estabelecer alguma distância psicológica entre si antes de começarem a tratar construtivamente os seus problemas. Por vezes, é mesmo necessário separá-los fisicamente, dando-lhes instruções para se sentarem longe um do outro no círculo do grupo. Repetidamente, temos que dizer, “Deixe a Mary falar por si própria, John” e “O John é capaz de se defender, Mary, é suficientemente forte.”

Por fim, se continuam na terapia, todos os casais aprendem que a verdadeira aceitação da sua própria individualidade e da do outro e a independência são as únicas fundações sobre as quais se pode basear um casa­mento adulto e o verdadeiro amor pode crescer.

Para saber mais:
O Casamento e o Mito do Amor Romântico
O mito do amor romântico por Mirtes Carneiro


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