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Simplificando e desmistificando o Ayurveda

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Há cinco mil anos, não se conheciam os elementos que hoje constituem a tabela periódica. Imersos e observadores, os estudiosos da época perceberam que tudo era formado pelos elementos básicos da natureza, considerando-os fundamentais em tudo que compõe o planeta – terra, água, fogo, ar e espaço (ausência de matéria, vácuo).

Eles se encontram misturados em diferentes proporções, tendo em sua estrutura as mesmas características dos elementos da natureza que os constituem.

Para a ciência moderna, tudo que existe é formado pelos 118 elementos químicos da tabela periódica, como hidrogênio, oxigênio, carbono etc. Unidos, eles formam diferentes moléculas com estruturas e características específicas. Ao longo de anos de estudos, esses elementos foram isolados, sintetizados e manipulados de modo a serem usados na agricultura, nos remédios, na indústria, na medicina, entre outros.

Ao investigar nosso corpo, a ciência descobriu também que o nosso metabolismo depende do trabalho das enzimas (grupos de substâncias orgânicas de natureza que têm funções catalisadoras, catalisando reações químicas que, sem a sua presença, dificilmente aconteceriam). Se fizermos um comparativo com o Ayurveda, não necessariamente temos fogo no corpo, mas o fogo (Ayurveda; natureza) é uma forma de representação da enzima (Ciência Moderna; elementos químicos).

“Dessa forma, podemos trazer o Ayurveda para a nossa realidade e para o nosso dia-a-dia de uma maneira muito simples e fácil de se entender. Nas próximas linhas, explicarei como os antigos estudiosos chamavam de elementos da Natureza podem influenciar nos nossos aspectos físicos e mentais, de acordo com as características de cada um deles”, comenta o Dr. Ricardo Bailsimelli.

As bases do Ayurveda são os cinco elementos da Natureza

Elemento terra – é o de maior densidade. No ser humano, representa-se em maior quantidade nas estruturas mais sólidas como órgãos e tecidos, ossos, pele, unhas, cabelos. No aspecto mental, a terra traz as qualidades de estabilidade, segurança, confiança, inflexibilidade e rigidez.

Elemento água – mais fluídico. São os líquidos orgânicos como sangue; lágrima; saliva; linfa (parte do sangue que saiu dos vasos e passou pelos tecidos); líquido articular (protege as articulações); líquor (encontrado no sistema nervoso central); menstruação; leite materno; líquido amniótico (protege o feto na gestação) e sêmen. Em nosso corpo, a água tem o papel de proteção, nutrição e lubrificação das estruturas. Sendo assim, seu aspecto psicológico é acolhedor, gosta de nutrir as pessoas, receptivo, cuidador, menos racional e mais emotivo. Sentimentos como ciúme e inveja também são bem presentes nesse caso.

Elemento fogo – presente nas reações metabólicas e manutenção da temperatura do nosso organismo. Na natureza, o fogo transforma, por exemplo, a madeira em cinzas. Em nosso corpo, está relacionado com a digestão (transformação de alimentos em nutrientes e excretas), produção de energia e calor por meio da “queima” de nutrientes, visão (transformação do estímulo da luz em imagem). Psicologicamente, traz o entusiasmo, a alegria, a intensidade, o discernimento (separa o que é bom ou ruim), a raiva, a impaciência e a crítica.

Elemento ar – está na respiração, na porosidade dos ossos (para que sejam mais leves), no oxigênio que circula pelo sangue, e na formação de gases provenientes da digestão. Promove o movimento no corpo – o ar/vento é responsável por balançar os galhos das árvores, espalhar sementes, mover a areia das dunas. No aspecto psicológico, o ar rege os movimentos da mente, pensamentos, desejos (movimento por buscar o que quer), reflexão (movimento em busca de analisar e solucionar), insegurança (por ser de baixa densidade, leve, promove a sensação de “perder o chão”), fluxo de pensamento acelerado, agitação.

Elemento espaço – presente entre os órgãos, vísceras, tecido conjuntivo (tecido de sustentação), gordura e etc. Mentalmente, representa o espaço entre um pensamento e outro, busca pela espiritualidade, busca pelo que está além do que nossos órgãos dos sentidos conseguem captar.

Agora imagine esses elementos presentes e misturados no nosso corpo.

Sim, é isso mesmo. Na natureza, esses elementos se misturam. Em nosso corpo também. Temos os cinco elementos em diversas proporções, promovendo uma estrutura física, mental e emocional diferentes uns dos outros, afirma Balsimelli.

Os Doshas

Dentro dessas combinações, o Ayurveda percebeu uma grande afinidade por determinados elementos e o resultado  da união entre eles é conhecida como Doshas.

Com a união de terra e água, surge o dosha Kapha, com as características destes dois elementos, promovendo a forma do corpo, lubrificação, nutrição e proteção. Psicologicamente relacionado ao carinho, proteção, estabilidade, amabilidade, acolhimento, gosta de uma rotina bem estabelecida, sensibilidade, doçura, calma e pacifismo.

Em casos de desequilíbrio (aumento de Kapha), temos uma produção excessiva de muco (asma, rinite e sinusite), edema (inchaço, excesso de líquido), sensação de peso, letargia, diabetes (excesso de “nutriente” – glicose), obesidade e tumores (excesso de células, excesso de matéria). Psicologicamente, pode apresentar depressão, ciúmes, inveja, tristeza, inércia, passividade, mágoa, rancor, inflexibilidade.

Da união de fogo e água, temos o dosha Pitta, com as características predominantes do fogo, apresentando poucos atributos do elemento água, que nesse caso aparecem como oleosidade da pele e couro cabeludo. Esse dosha está relacionado ao metabolismo e à digestão.

Em equilíbrio, apresenta bom apetite e boa digestão, com sensação de leveza após comer, disposição para as atividades diárias, temperatura corporal em 36,5°C bem distribuída pelo corpo, uma boa constituição muscular. Psicologicamente são pessoas de alta produtividade e eficazes, corajosas e ávidas por desafios intelectuais e emocionais, propensas à liderança com boa oratória e influência sobre as pessoas.

Em desequilíbrio, esse dosha promove sensação de calor excessivo, queimação no estômago e refluxo ácido, processos inflamatórios (inflamação tem as mesmas características do fogo apresentando calor, vermelhidão, sensação de queimação, inchaço que corresponde ao elemento água) como gengivite, conjuntivite, tendinite entre outras. Psicologicamente, podem apresentar impaciência, raiva, fúria, irritabilidade, grande necessidade de controle e manipulação sobre as pessoas.

Finalmente temos Vata, proveniente da união dos elementos ar e espaço. Apresenta as características do vento, portanto move o corpo, tem relação com a circulação sanguínea, peristalse (movimentos do sistema digestivo), respiração (fluxo de entrada e saída de ar), fala (movimento do ar saindo do corpo), leveza das estruturas do corpo (se os ossos não fossem porosos seriam muito pesados), audição (o ar faz vibrar o tímpano e propicia o som).

Psicologicamente, esse perfil tem boa criatividade (o ar buscando solução para problemas), facilidade para mudanças na rotina (o vento tende a ser irregular na natureza, ora soprando para um lado, ora para outro), gosta de viajar, conhecer culturas novas, desenvolver novas habilidades e aprender coisas.

Em desequilíbrio, pode apresentar falta de ar, eructações (arrotos), cólicas por apresentar muitos gases no intestino, alteração na pressão sanguínea e batimento cardíaco, sinais e sintomas de secura no corpo (pois o vento seca, por exemplo, as roupas no varal mais do que o próprio sol) como secura nos olhos, boca, pele, vagina.

Esse “secar” também promove redução do volume e da força dos tecidos, gerando unhas e cabelos fracos, perda de peso, perda de massa muscular e fezes ressecadas. Psicologicamente, está relacionado com estados de ansiedade (como um vendaval de pensamentos na mente que leva a atenção para o passado e futuro e não estabiliza no presente), falta de atenção (a mente se move como o vento e não consegue se fixar), insegurança e medo (por estar “leve”, perde a sensação de segurança da terra).

Todo esse conhecimento adquirido há milênios apenas observando e comparando nosso corpo com o que ocorre na natureza.

Por Dr. Ricardo Balsimelli


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