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Nilton Bonder: Dos roubos por opressão

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Assim diz o rabino Nilton Bonder:

Abre aspas.

Uma das formas mais importantes de suprir de recursos outros mundos do sustento é por meio do não roubo. Não roubar enriquece o mercado e principalmente o indivíduo, que não necessita ter mais para garantir seu sustento.

Pensamos, no entanto, que, por não sermos socialmente reconhecidos como ladrões, o roubo está longe de nossa realidade. Isso não procede. Realizamos roubos em grande parte de nossas interações. Pequenos roubos que afetam o escoamento de riquezas do mercado.

A Bíblia, em Lev. 19:13, classifica as interações de furto como sendo de duas ordens: opressão (ossek) e saque (guezel). Vejamos alguns exemplos de roubo por ossek – ou seja, a não devolução de algo tomado mesmo com o consentimento do dono, ou a retenção de algo que pertença ao outro e que, mesmo não pretendendo que fique conosco, impedimos de retornar a seu legítimo dono.

Roubo de Tempo

Muitas vezes detemos o poder de liberar algo ou alguma informação o que, por motivos que nem sempre nos são claros, postergamos. Este é o caso, por exemplo, daquele que aguarda uma resposta que é retida sem nenhuma razão. Ou do adiamento da resolução de uma situação para o dia seguinte, quando sabemos que não haverá qualquer possibilidade de alteração ou mudança que justificasse tal protelação. Por que não respondemos de imediato, até reconhecendo nossa ignorância, falta de habilitação ou mesmo de interesse? Adiamos algo sem razão alguma e tomamos tempo de alguém. Esta é uma enorme tragédia particular do indivíduo e de seu mercado.

Também cometemos ossek quando, para livrar-nos de alguém, encaminhamos esta pessoa a outra que supostamente poderia ajuda-la, mas sabemos que não irá fazê-lo, por uma razão ou outra.

Na tradição judaica, tanto o tempo quanto o espaço são dimensões que a Deus pertencem. Mais que isso, na perspectiva religiosa, o tempo que nos é dado viver é determinado pelo desejo divino: se consumimos este tempo “enrolando” nossos semelhantes, roubamos do mercado todas as possíveis “riquezas” que estariam sendo realizadas no tempo tomado. Somos então responsáveis pelo fato de o mercado ter de absorver este débito em seu potencial.

Roubo de Expectativa

Diz a Bíblia em Deut. 24:14

No mesmo dia em que concluir seu trabalho, pague seu salário; não deverá o sol se pôr sobre ele […] pois sobre ele [seu soldo] deposita sua alma.”

Este conceito não se refere a qualquer desvalorização que o salário possa sofrer em decorrência da demora, pois isto seria considerado saque (guezel). Este caso refere-se única e exclusivamente à expectativa de o trabalhador ter o que lhe é de direito para usar da maneira que bem entender.

Se retemos dinheiro de alguém, mesmo que lhe devolvendo valor igual, privamos seu dono de seu direito. É como se estivéssemos roubando sua expectativa de ter o dinheiro no exato momento em que este passa a lhe pertencer.

O mesmo se aplica a expectativas falsas que possam ser criadas em comerciantes. Demonstrar interesses irreais, dando espaço para que um comerciante já comece a contar com um possível ingresso de capital, incide sobre o problema de roubo de expectativa. Se agirmos desse modo apenas para agradar ou com o intuito de criar expectativas, devemos estar conscientes de que estamos entrando em um nível diferente de interação que acena com possibilidades de transação.

Roubo de Informação

Outra forma de opressão (ossek) é a retenção de informação que permitiria maior riqueza no universo (ISHUV HA-OLAM). Muitas vezes somos chamados a dar conselhos sobre diferentes assuntos, e essa forma de transação também pode resultar em roubo.

Se alguém vem lhe perguntar um endereço na rua, você pode simplesmente dizer: “Fica a tantas quadras, à direita ou à esquerda.” No entanto, se você sabe de alguma informação que é importante, deve compartilhá-la. Encontramos o comentário (Sifra): “ Se alguém vem te consultar, não aconselhes incorretamente. Não digas, por exemplo: ‘Vai bem cedo, quando ladrões te podem atacar’ ou ‘Vai ao meio-dia, quando o sol pode ser insuportável…’”

Ao darmos uma informação, devemos nos perguntar como aconselharíamos a nós mesmos. A máxima bíblica “Ama a teu próximo como a ti mesmo” está intimamente relacionada com a questão do roubo por opressão. Esta é uma grande dica para enriquecer o mercado. Se alguém nos pergunta como chegar determinado lugar, podemos muito bem orientar a pessoa para que ela não apenas chegue a esse lugar, mas que o faça da maneira mais fácil e segura. Quantas vezes, por pura preguiça ou insensibilidade em relação à importância da transação que se processa num pedido de aconselhamento ou informação, passamos adiante apenas fragmentos de nosso conhecimento?

Roubo de Prestígio

Muitas vezes podemos causar grandes estragos no mercado por meio das informações que disseminamos e difundimos.

Não estamos nos referindo a inventar calúnias, pois estas não se encaixariam na classificação de opressão (ossek),e sim de saque (guezel). Falamos da disseminação de informações verdadeiras que possam ser prejudiciais. Maimônides comenta:

As más-línguas matam três pessoas: quem fala, quem ouve e aquele de quem se fala; quem ouve mais do que quem fala.”

O grande problema da má-língua é que ela desqualifica ilimitadamente uma pessoa. Aquele que ouve uma fofoca não sabe dar limites à realidade implicada nos fatos contados.

Uma fala pode poluir a atmosfera e arrasar o mercado. Sua capacidade de destruição é tão grande que os rabinos a associam ao mandamento “ não prostituirás a terra”. Afinal, a má-língua pode ser comparada em seu poder destrutivo a armas nucleares: espalha-se em cadeia com grande poder e permanece por muito tempo no ar, matando lentamente as possibilidades de um mercado sadio.

Fecha aspas.

 

Sagrado é o instante em que dois indivíduos fazem uso de sua consciência na tentativa de estabelecer uma troca que otimiza o ganho para os dois.

 

Nilton Bonder em A Cabala do Dinheiro.


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